Brasil, Skate e Olimpiadas Entrevista com André Viana Figueiredo

Rio de Janeiro, 11 de Novembro de 2016

Das dificuldades ao patamar olímpico – respeito, dignidade, dificuldade, diversificação, falta de recursos e superação – o skate brasileiro
Por Nícolas Kieling

André Viana Figueiredo, 41, Profissional de Educação Física, Consultor Esportivo, Skatista desde 89, Presidente da Federação de Skate do Rio de Janeiro e Presidente do Tribunal de Justiça Desportiva da Confederação Brasileira de Skate (CBSK), comenta sobre a imagem atual do skate no Brasil e no mundo, ressaltando a importância da entrada do esporte na próxima olimpíada de Tóquio, em 2020.
Atualmente o Brasil possui 678 skatistas profissionais confederados a CBSK, amadores que enfrentam problemas para conseguir patrocínios, e sofrem da falta de incentivo para se profissionalizarem e são maioria nos campeonatos da entidade e o maior enfrentamento do skate – a falta de recursos.
André nos explica como o skate funciona, quais as dificuldades, e como será bom para o esporte atingir o patamar olímpico.
A vinda das marcas estrangeiras, as aposentadorias e os talentos que perdemos, os campeonatos, as inovações do esporte, a profissionalização e as novas expectativas, seguem na conversa abaixo:

Felipe Ribeiro - Hardflip - foto julio Tio verde

Felipe Ribeiro – Hardflip – foto julio Tio verde

 

 

 

 

 

 

NK – Como você analisa o Skate brasileiro atualmente?
AV – O Skate tem dois pontos de vistas muito fortes. Um mais voltado para a rua, para o aspecto cultural e artístico e outro para o aspecto esportivo que é mais concentrado em competições e as diferentes formas de jogar o skate.

No Brasil os dois pontos de vistas podem ser encontrados em movimentos muito fortes, em todo território nacional, de o norte ao sul, assim como na floresta ou interior e principalmente nas grandes capitais.
No caso esportivo levando em consideração todo histórico da organização de competições, de skateparks, de criação, de manutenção, de quantidade, de organizações esportivas e dimensão geográfica, podemos dizer que o skate Brasileiro tem em seu DNA a maior estrutura e histórico de organização esportiva do mundo. Incluímos nessa analise o grande número de skatistas brasileiros campeões mundiais pela World Cup Skateboarding, assim como 2 campeões e um bom número de participantes no seleto grupo da World Street League, entre muitos outros títulos mundiais em outros eventos ou categorias como o X Games, Mega Rampa, Dew Tour, dentre outros. Além disso é de fato notório a enorme capacidade de organização do skate nacional por meio de associações municipais e/ou regionais, federações estaduais, ligas, clubes e uma confederação nacional (CBSK) que hoje conta com uma iniciativa embrionária, inovadora e visionária de instituir o primeiro Tribunal de Justiça Desportivo especializado em skate que se tem notícia no mundo.

NK – Como a CBSK atua no Skate brasileiro, seja profissional ou amador?
AV – A CBSK é uma entidade privada e atua como entidade maior de organização e regulamentação do skate Brasileiro. Foi fundada no ano de 1999 em Curitiba. De lá para cá sofreu algumas mudanças em sua estrutura passando por diferentes fases. Atualmente encontra-se com sede em São Paulo.

No início atuava principalmente no skate profissional, porém mais tarde iniciou um trabalho junto as categorias amadoras e outras modalidades de skate, principalmente para realização de eventos nacionais amadores e profissionais, haja visto o tamanho do nosso país. A CBSK atua também na tentativa de regulamentar o skate em suas diferentes vertentes (modalidades) e faz isso milagrosamente da melhor forma possível com o pouco recurso existente.

Com o passar dos anos e com muita dificuldade tudo foi se consolidando, a crise que o país enfrentou em 90 e enfrenta hoje atrapalha um pouco, muita gente antiga do meio do skate ainda realiza seus trabalhos paralelamente a CBSK, usando regras próprias ou regras internacionais aplicadas na iniciativa privada empresarial ou associativa, o que pode até atrapalhar, mas em alguns momentos é muito saudável dependendo do objetivo.

Essa dificuldade se consolidou fortemente depois da entrada das marcas estrangeiras no Brasil, acarretando no enfraquecimento do investimento de algumas marcas brasileiras, pois perdeu-se espaço e nada mais foi como antigamente, quando ajudaram a construir a base do esporte por aqui antes do surgimento da CBSK que tinha como uma de suas premissas organizar isso.

Hoje no sistema esportivo adotado temos a CBSK como entidade nacional, as federações estaduais filiados a ela – e associações, clubes e ligas filiadas as federações.

NK – Quantos atletas profissionais a CBSK possui?
AV – Atualmente não tenho uma ideia exata de quantos skatistas profissionais estão aptos para competir profissionalmente, mas gostaria de expor minha opinião sobre o tema – acho importante. Há muitos anos não temos eventos assim, aberto para profissionais, na região sul ou sudeste, como existiram no passado e criou uma importante cena na geração do skate nacional. Só existem eventos fechados para poucos convidados. Muita gente está aposentada, mas já vi campeonatos no final da década de 90 e na primeira década do segundo milênio com mais de 200 competidores profissionais em São Paulo.

Hoje a maioria destes estão aposentados e os jovens não são mais incentivados a se profissionalizarem, e a maioria das grandes competições são amadoras. Esse é o formato que foi criado e implantado pela CBSK no Brasil.

De uma certa forma isso foi feito como uma proteção de mercado porque existem poucos patrocinadores e tem muita gente despreparada querendo entrar no mercado, mas com esse formato alguns talentos podem ficar de fora, excluídos. Em campeonatos de street no nordeste, por exemplo, a viagem custa caro e pouca gente vai.

No bowl e no park o número de profissionais cresceu muito nos últimos anos, tem muita gente sobrando nos eventos profissionais que estão sendo feito para convidados; já no street onde os praticantes são a grande massa praticamente não tem eventos na categoria profissional, e quando se fala em profissionalização existem duas linhas de raciocínio: a primeira – o skatista que é profissional e não compete; e a segunda – o skatista que é competidor profissional. Se a CBSK regulamenta o skate como esporte, a profissionalização da CBSK como tal deve estar mais associada ao segundo caso.

O skate como um esporte na minha opinião deveria de respeitar a regra internacional, pois mesmo que não exista uma entidade ou uma regra forte determinando um formato de profissionalização, existe certamente o costume, e esse costume deveria ser seguido aqui por analogia. A regra internacional trata a profissionalização de uma forma completamente diferente – é muito mais saudável e mais democrática ao crescimento do skate.

Podemos levar em conta neste assunto, que o campeão mundial de 2016 da World Cup Skateboarding é um amador Brasileiro chamado Ivan Monteiro. E temos vários amadores nesse ranking mundial como profissionais, porque esses eventos são abertos, a livre iniciativa de mercado, de patrocínio e a quem deseja tentar a sorte; e o conceito de profissional esta muito mais associado a qualidade de habilidade e conhecimento técnico e experiência profissional, como acontece em outras modalidades esportivas e não em uma relação de trabalho.

NK – Quais são as chances do Brasil nas modalidades Street e Park, que serão avaliadas em Tóquio?
AV – O Brasil tem muitas chances. E o skate passará a ser um dos esportes que mais vai receber investimento do COI (Comitê Olímpico Internacional) por causa disso.

Serão 2 modalidades em masculino e feminino, ou seja, estamos falando em 12 medalhas, sendo 4 ouro, 4 prata e 4 bronze e o Brasil tem chance de levar a maioria delas.

Eu levei 20 Brasileiros Amadores como Diretor Técnico para uma competição Sul-americana no Chile em 2007 e trouxemos 10 das 12 medalhas disponíveis, e o nível da competição foi muito alto, mas os americanos não estavam presentes. Outros Países como Austrália e Canada também são muito fortes. Mas nas olimpíadas não vai ser diferente, estamos entre os melhores do mundo e existem muitos atletas de alto rendimento, em alto nível técnico para isso.
Vai depender muito do critério de vagas, mas se o Brasil puder levar um maior número de atletas junto com os Estados Unidos, o que é justo, teremos chances muito fortes de trazer muitas medalhas.

NK – O quão bom é para o Skate atingir o patamar olímpico ?
AV – O skate na olimpíada vai ser respeitado. A regra do jogo, da competição não deve mudar. O que o skate ganha é visibilidade, investimento, dignidade e respeito para atingir outros patamares.

As olimpíadas são jogos que fazem parte do maior evento de marketing esportivo do mundo e o skate fazer parte disso vai ser muito bom, claro que o interesse hoje na inclusão da modalidade é muito maior dos Jogos Olímpicos, pois o skate sempre existiu e sobreviveu.

Hoje o skate como esporte tem bastante audiência e está envolvido em grandes projetos pelo mundo, além do fato de sua imagem estar muito associada ao público jovem e de os jogos Olímpicos precisarem se renovar melhorando o potencial como negócio esportivo na venda de ingressos, assim como, precisam de audiência e de uma renovação de audiência e público.

Por esses motivos, a entrada do skate nos jogos em Tóquio já era esperada e vai ser uma importante parceria apesar de sofrer com algumas críticas de uma galera mais radical do skate, vai ajudar o mercado profissional do esporte de uma forma geral.

NK – Como a CBSK se preparará para que os atletas possam representar bem o Brasil?
AV – A CBSK vai precisar entrar em contato com o COI e montar uma equipe de gerenciamento do projeto – Skate Olímpico – para organizar toda essa informação. Certamente ela vai precisar contratar um corpo técnico para fazer isso, e não é um projeto de semanas, e sim de anos; o sucesso de tudo isso vai depender desse planejamento e dessa organização.

Vai ser necessário desenhar e entender melhor de quem realmente será a competência e como serão esses processos internacionais. Certamente o COI vai ajudar com recursos e surgirão patrocinadores interessados.

NK – O Brasil é um das grandes nomes do Skate mundial, isso reflete nos campeonatos que o país possui?
AV – O skate brasileiro tem vida própria, e existem centenas de campeonatos anualmente por aqui – mas respondendo, sim realmente reflete, assim como o herói esportivo influenciou ao longo da história, conforme o skate foi conquistando títulos mundiais desde o primeiro conquistado por Rodrigo Menezes em 1995. Isso mexe com o emocional das pessoas e faz o esporte crescer e a prática se fortalecer: pistas são construídas, novas pessoas praticando ou voltando a praticar; isso só aumenta o futuro e as expectativas do skate.

NK – Os campeonatos da CBSK possuem só atletas profissionais?
AV – A CBSK hoje somente realiza competições amadoras como: o Brasileiro Amador masculino, o Brasileiro Master, o Brasileiro Mirim e o Brasileiro Feminino. Ela já realizou o Brasileiro profissional, mas atualmente está sem patrocínio para esse projeto.

A CBSK assim como algumas federações, se envolve indiretamente com centenas de competições em todo país por meio de chancelas, oficializações, eventos e em alguns casos na realização de rankings.

NK – Como você avalia a comunicação da CBSK com o atleta profissional brasileiro? E com os demais praticantes do Skate pelo país?
AV – A CBSK se comunica por um site, tem um conteúdo institucional. A parte de regulamentação pode melhorar no aspecto democrático, mas imagino que a entidade tenha falta recursos para fazer reuniões e melhorar a comunicação com as entidades.

Veja que o pais é grande, e é difícil reunir as pessoas, mas a internet passou a ajudar bastante. A comunicação com os atletas e outros personagens é feita também por telefone ou por e-mail. Não há relativa interação ou comunicação da entidade por rede social.

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